
A mente é um tribunal que sempre emite uma sentença eterna de sofrimento e angústia, caso não haja a intervenção terapêutica; e o psicólogo competente deverá não ter medo de fazer o papel de advogado e juiz de seu paciente, para que possa o liberar de um tormento que jamais terá um desenlace satisfatório. Apenas a passividade e a escuta são como determinadas testemunhas que foram convidadas para assistir a pena capital de um condenado. Ajuda nunca será um observatório do caos psíquico; nem também um turbilhão de emoções incontroláveis; mas o estabelecimento da confiança em uma pessoa de certa forma "estranha", que soube interpretar exatamente aquilo que sempre nos despertou medo, mágoa e ódio, mas que tanto insistimos para que permanecesse vivo nos recônditos de nossa mente.
A terapia não é apenas a dificuldade da revelação do segredo, mas o trabalho que sangra a nossa alma que é o de retirar o valor ou preço elevado de determinados afetos.O que quero ressaltar é que dito envolvimento deve ser a percepção por parte do paciente de que o terapeuta encarna a real figura de um amigo de que tanto precisou e jamais encontrou durante sua vida. A cláusula pétrea é mostrar ao paciente a verdade mais dolorosa possível: que no presente momento está infeliz e sofre brutalmente com toda a carga de tal condição; mas que tal estado jamais pode ser eterno. Nenhum ser humano é capaz de passar por determinada dificuldade feliz ou satisfeito. O que quase ninguém percebe é que num futuro próximo determinado potencial criativo é descendente de tal trava pretérita.
A felicidade é o tempo da gestação e elaboração de aspectos mórbidos e destrutivos que acabam se dissipando na esperança, desde que a pessoa não desista e saiba que esta última é a pura experiência subjetiva; mas extremamente real quando se possui a certeza do valor próprio; e o terapeuta deve ajudar o paciente a descobrir onde está escondido tal potencial.Fala-se tanto em mudar através do psicólogo, mas o que é isso realmente? A mudança caminha em paralelo com a diminuição da saudade, tanto positiva quanto negativa. Nenhum sofrimento jamais pode ser esquecido; mas também nenhum novo passo pode ser dado enquanto a energia estiver concentrada no passado. Todos conhecem a memória, e sabem de seu poder torturante neste âmbito. Esta é a batalha máxima que o psicólogo deverá travar com seu paciente.
O remoer a ferida evita o Pânico de se consumir aquilo que é bom. Não é necessariamente o "medo de ser feliz", mas que tal felicidade se esgote caso a gozemos diariamente. Poucos percebem tal questão. Temos no inconsciente uma idéia de "economia do prazer", sendo que o mesmo deve ficar guardado ou ser poupado. O núcleo econômico de nossa sociedade assim como a ambição é este: evitar a qualquer custo o vazio depois de determinada conquista. Em nossos tempos temos oferta de tudo em abundância: inteligência, sabedoria, beleza e diversas outras coisas. Discutir tudo isto seria um tanto tautológico. A única carência é o acesso a tudo o que é valorizado. Criam-se expectativas e sonhos que apenas alguns poderão realizar; para o resto, sobra o infortúnio de uma vida de sacrifício por algo que nunca emanou de seu íntimo.
Antonio C. A. Araujo.
psicólogo de casais e familia.
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