terça-feira, 16 de março de 2010

O PROCESSO DO ÓDIO E AMOR...(ANÁLISE PSICOLÓGICA






"A hipocrisia é o mais belo monumento do ódio, sendo que seus lugares de visitação pública são: a política, a moral e a religião". (ANTONIO CARLOS- PSICÓLOGO)

"Amor, trabalho e relações sociais deveriam ser o centro da existência humana, porém, a tríade que guia nossa conduta nesses tempos é representada por: ódio, inveja e sabotagem do prazer.

"Só haveria algo positivo na inveja se pudéssemos reproduzir fielmente o modelo de vida de alguém realmente criativo.


Discutir o processo do ódio é sem dúvida nenhuma o maior preconceito relativo às questões humanas. É quase impossível encontrar alguém que admita sentir ou nutrir tal sentimento, dada toda a educação cristã presente em nossa sociedade. O fato é que admitido ou não, este é um sentimento que representa a essência humana, e não precisaremos observar muito para descobrirmos como se encontra disseminado em todas as condutas e desejos do ser humano.

O amor não deixa de ser algo totalmente ambíguo se pensarmos em seu desenvolvimento num determinado ser humano. Alguém que nunca quase foi amado ou protegido, crescerá sob a égide do ódio ou revolta; em contrapartida, é bastante comum vermos uma pessoa que foi amada e educada corretamente, crescer com o desejo de jamais se desvencilhar da proteção, ou até mesmo do caráter de exploração perante seu meio circundante, apenas desejando continuamente receber. A chama do amor é estritamente uma independência pessoal, aliada à um intenso desejo de receber e dar o prazer das mais diferentes formas: sexual, pessoal ou social. Obviamente a pessoa preparada para o amor, é aquela que conseguiu se livrar de todas as armadilhas pretéritas da criação social, sendo que será sempre um inflamado desejo de investimento no presente, não a dissipação de nossas energias afetivas na lembrança de um passado de dor, ou apenas a fantasia e ilusão de um futuro de felicidade.

Infelizmente poucas pessoas percebem que o amor é uma espécie de portal para as mais diversas emoções humanas: raiva, ódio, solidão, desamparo, abandono, êxtase, culpa dentre outras. O problema passa a existir quando desejamos apenas vivenciar as emoções positivas, esquecendo o outro lado da moeda. O amor em um relacionamento acaba quando nos sentimos indiferentes a felicidade e satisfação do outro, e o mesmo jamais existiu quando não temos energia ou vontade para revertermos tal quadro. Como quase todos sabem, o contrário do sentimento amoroso não é o ódio, mas, a indiferença, que não deixa de ser a prova máxima da incapacidade da escolha correta. Quase todos tentam começar a trilha do amor pela busca da beleza ou desejo sexual, sendo que o ponto crucial é se o outro está plenamente capacitado para nos completar. A própria beleza é uma entidade a parte, não necessitando do amor para sua existência; sua permanência e término seguem um caminho totalmente isolado de outros processos, devido a importância que o meio lhe outorga. O amor é um projeto que sempre incluirá mais de uma pessoa, e quando o desejamos apenas para um desejo privado, estamos apenas cultivando um sofrimento pessoal.

O grande mistério a ser resolvido quando tratamos deste assunto é : Quem é acariciado plenamente com o amor do outro? Alguém que o desejou desenfreadamente? Aquele que desde a tenra idade foi treinado para o mesmo? A personalidade quieta e tranqüila? Ou será que o mesmo é pura questão de sorte? Com toda a certeza, a ansiedade e frustração passam a ser barreiras naturais para a obtenção do mesmo. O que é vital percebermos seria os elementos que corroem dito sentimento. Sobre a própria troca, poucos param para refletir sobre suas sensações e estado emocional no momento em que lhes é exigido doar algo. Seja na sexualidade ou em outra área, o importante é a observação não apenas se o parceiro é capaz de cumprir nossos desejos, mas seu estado mental e como disse, emocional perante os mesmos; sempre o amor será um teste infinito da vontade. Tais reflexões nos levam a perceber qual papel adotamos perante alguém: devedor, culposo, submisso, ou uma pessoa livre e integrada. Não será difícil tomarmos consciência de que o amor para muitos é a fuga absoluta do dever, regredindo ou desejando um estágio de solidão, que por mais doloroso que seja, tranqüiliza a pessoa que resiste plenamente à doação. Também é notório o fato de que qualquer sentimento positivo jamais pode ser plantado no solo da inveja ou competição, do contrário, a relação sempre caminhará para uma tensão inesgotável.

Depois de milhares de explicações, teses e conselhos, é interessante notar como o projeto do amor é talvez um dos mais frágeis do arcabouço da personalidade humana. Como a desilusão e mágoa não demoram a aflorar quando nos vemos envolvidos por determinada pessoa. Parece que nosso sonho ou a mais profunda imagem idealizada de alguém, morre ao primeiro sinal de problema no percurso da relação. Inclusive quase todos compartilham da equação de que quanto maior o sonho, maior será a derrocada. Seria então o amor uma antítese absoluta do desejo ou imaginário temporal cultivado por nós? Seria o amor a prova derradeira de que não possuímos o poder sobre a realização concreta de nossos desejos e fantasias? Na maioria das vezes, nos deparamos com o conhecimento subjetivo de que nossas relações fracassadas apenas espelharam um processo incrivelmente pequeno de apego e orgulho. O amor sempre está associado ao ódio em virtude da corriqueira frustração pessoal da inversão do poder nos relacionamentos, quando se sabe que o parceiro já não mais necessita de nossa afetividade, e contudo, continuamos presos em uma imagem passada que o outro não deseja mais compartilhar. A raiva passa então a ser um mecanismo psicológico de defesa, perante todas as decepções que estão por vir. A raiva e o ódio sempre serão uma fácil escusa para um ser humano totalmente incapacitado para a busca de seu prazer e felicidade pessoal. Deveríamos aprender com tais sentimentos negativos, pois os mesmos são um dos mais precisos instrumentos de medição daquilo que realmente nos falta.

No decorrer da história da psicologia, quase sempre se ressaltou a permanência de resíduos infantis na afetividade adulta, sendo que boa parte dos relacionamentos atuais comprovam tal tese, pois, são nada mais do que uma mescla de infantilismo psíquico aliados à um neurótico desejo de proteção e amparo. Temos muito o que aprender sobre esta matéria, caso não desejemos que nosso futuro pessoal seja uma somatória de caos, terror e experiências de pura decepção. A prática da psicoterapia é essencial para a tomada de consciência de todas as questões levantadas, sendo que o seguir um caminho sem reflexão ou ajuda do próximo só eleva o potencial destrutivo de determinada pessoa.

Infelizmente as pessoas gostam de brincar com palavras, sendo que se faz sempre uma distinção entre os chamados "sentimentos hostis": inveja, raiva e ódio principalmente. Se pararmos para uma reflexão mais apurada descobriremos se tratarem de sinônimos, pois os três elementos citados estão diretamente relacionados à tentativa de impedir o livre fluir de determinado potencial humano. Obviamente quando impedimos que alguém se desenvolva em todos os sentidos, estamos tentando esconder todas as nossas frustrações pessoais e principalmente o prestar contas com nosso próprio potencial não efetuado. Aferir nosso potencial perante outrem sempre será uma das mais dolorosas experiências humanas. Quanto maior nosso sentimento de estarmos aquém de alguma expectativa ou determinada pessoa, maior será nosso desejo de procurarmos companheiros para nossa miserabilidade pessoal, sendo esta a essência máxima do ódio ou inveja, independente das posses ou recursos materiais de cada um.

Esmiuçando um pouco mais a tese acima descrita, concluímos que a própria mágoa nada mais é do que a constante atualização do ódio , sendo que adoramos nutrir dito sentimento diariamente. Em algumas ocasiões perdemos o controle, então surge a vingança como resposta ao apego do qual não desejamos nos livrar. Infelizmente toda a sociedade está mergulhada nesse processo, e quanto maior nosso complexo de inferioridade mais combustível é liberado para aumentar a chama do ódio. O efeito colateral mais grave disso tudo é que a cada dia está mais difícil efetuarmos determinadas tarefas que nos fazem bem ou nos proporcionam prazer, sendo que somos vítimas da sabotagem social e pessoal.

A verdade é que não temos capacidade para lidar com a frustração, sendo que somos absortos pela fúria quando as coisas não saíram como planejado. Deveríamos admitir que não possuímos nenhum treino para a contrariedade ou crítica, seja construtiva ou não, e o sentimento resultante é a raiva contra a pessoa que nos apontou algo.

É incrível observar como determinado sentimento tão arraigado na natureza humana é totalmente reprimido, agindo sempre nos bastidores de nossas relações.

Talvez nossa única saída seja sempre termos uma segunda opção, embora isso comprometa de forma definitiva as seguintes qualidades: confiança, entrega, dedicação e principalmente fidelidade. É incontestável que o ódio consegue sobrepor inclusive a questão do tempo, pois determinada contrariedade é suficiente para anular toda a energia depositada em algo ou determinada pessoa, sendo que o rancor sempre se torna a sensação resultante.

O tributo maior cobrado pelo ódio é estar à disposição do mesmo constantemente, exaurindo nossa energia para algo que realmente poderia dar certo. Como sempre há uma compensação, a única utilidade de viver dita experiência é a perda da ingenuidade, pois a mágoa nos revela com que tipo de pessoa estamos lidando verdadeiramente. Houve uma significativa mudança da introversão para a extroversão no processo acima descrito, pois na época dos primórdios da psicologia de FREUD se falava em repressão e sintomas oriundos da falta de prazer, pois as pessoas somatizavam sua infelicidade, e embora isso ocorra ainda hoje, há uma progressiva tendência para a exteriorização do dano pessoal, comprometendo ou se torcendo pela insatisfação alheia. O fato marcante é o extremo sentimento de tédio e aprisionamento na rotina diária, e as conseqüências psíquicas são: total insatisfação, angústia e principalmente impotência de lidar com ditas questões. Todos nos sentimos presos, seja na insatisfação, infelicidade, raiva ou vício de qualquer espécie. Assistimos passivos o desenrolar de nossa vida na mais pura insatisfação, juntamente com a extrema angústia de nossos desejos não realizados.

Somos muito sensíveis às experiências negativas e frustrantes, sendo que necessitamos urgentemente da novidade para reavermos nosso equilíbrio psicológico. Este apenas se manifestará no ato criativo, na nossa certeza interior de sempre produzirmos algo e nunca no tamanho de nossas economias ou vaidades pessoais.

Se prestarmos suficiente atenção para o ponto acima descrito, veremos a importância decisiva de sempre estarmos prontos para um recomeço. A própria questão religiosa do perdão se torna obsoleta no contexto citado, pois perdoar sempre é um ato que implica o extremo peso do passado com todas as suas impregnações e seqüelas, e não existe nenhum método religioso ou terapêutico que faça que nos esqueçamos de nossas pendências, exceto a certeza máxima e confiança pessoal de que nossa energia ainda não está acabada, e por respeito ao nosso íntimo devamos prosseguir, embora a maioria das pessoas não esteja preparada para tão árdua tarefa. O principal combustível do ódio é sem dúvida nenhuma o apego, pois o mesmo além de gerador da mágoa nutre de forma inimaginável o rancor, sendo que a tradução deste sentimento é o puro ódio por não se possuir mais determinada coisa.

Historicamente a psicologia provou que a grande raiz do sofrimento psíquico é o passado do indivíduo, sendo que o mesmo acarreta um distúrbio no sentido de reequilibrar a saúde psicológica perdida. Então é necessária a reflexão sobre o preço pago por todos sobre as convicções pessoais e religiosas que carregamos. Quanta soma de angústia ou desespero se fará necessária até a tomada de alguma atitude em relação ao que já ficou para trás? Sabemos que o egoísmo e individualismo são as piores saídas, embora permaneçamos nos mesmos por causa de nossa impotência e espírito individualista.

A tragédia do amor é a falta do mesmo ritmo de um sentimento que deveria ser compartilhado por duas pessoas, ocasionando o máximo de sofrimento para quem deseja estar profundamente envolvido. Infelizmente o amor nega a percepção das diferenças, bem como a possibilidade ou não de se alterar tal quadro; o resultado é a tortura pessoal diária e o aumento exacerbado da fome de nosso espírito por algo que realmente nos preencha.

Todos em algum momento de suas vidas já perceberam que o desejo só nos afasta a cada dia daquilo de que mais necessitamos. Quanto maior nossa volúpia por algo, mais distante se torna nosso sonho de nos sentirmos felizes e confiantes em nossa pessoa. O desejo só não é destrutivo quando temos a pessoa amada ao nosso lado e diariamente temos o deleite de cultivar o amor da relação. Tal fato porém é raríssimo, e como a maioria das pessoas não está capacitada para entregar aquilo que é o mais valioso, a chama do ódio permanecerá constantemente acesa. Desejar na ausência só alimenta nossa miséria pessoal se não traçarmos estratégias para a mudança do quadro citado.

Outro aspecto extremamente importante do ódio a ser elaborado é a questão da perda da identidade pessoal; pois quem estiver mergulhado em dito sentimento transfere sua alma ou os mais íntimos desejos para outra pessoa, seja através do rancor ou vingança, mas o fato é que a partir desse ponto sua vida pessoal é secundária perante o que nutre ou sente pelo outro.

Se verdadeiramente a humanidade almejasse alguma evolução no aspecto do ódio todos teriam que discutir abertamente suas raízes, principalmente no âmbito familiar. Por mais óbvio que seja para qualquer observador não religioso, é impressionante como se nega o fato dos pais desejarem o mesmo destino para seus filhos, sendo que muitas vezes esse desejo é camuflado pela dedicação e sacrifício, sendo que a conseqüência é um exacerbado sentimento de culpa carregado pelos descendentes.

A felicidade demonstrada por uma criança nada mais é do que a ausência da crítica perante determinado evento. Sua alienação básica é o seguro contra o mundo insano, ao mesmo tempo que nos relembra eternamente que poderíamos nos esquecer de certas coisas e seguirmos adiante.

O ódio sempre é um termômetro dos ataques ou injustiças dirigidas ao nosso íntimo. O grande problema é achar que suposto sentimento é o mesmo que destrutividade, sendo o objetivo desta última apenas a aniquilação. Obviamente um ato destrutivo pode ser resultante de um ódio intenso acumulado, porém não podemos nos esquecer que o ódio também pode ser benéfico ao nos mostrar o que nos causa mal estar.

Ódio e amor só caminham juntos devido ao fato do primeiro ser a prova máxima do fracasso de nosso investimento afetivo. O amor é o teste máximo do sucesso ou fracasso pessoal de um ser humano, e nem mesmo o dinheiro ou ambição são capazes de sobrepor tal afirmativa, apenas podem criar um anestésico temporário. O conceito acima descrito é tão nítido que nos tempos atuais as pessoas evitam o envolvimento profundo justamente com receio do sentimento alheio, que para muitos é o teste máximo do amor próprio. Para uma grande maioria ser amado incomoda, pois ditas pessoas não estão dispostas a retribuição. A sedução e conseqüente sentimento de poder há muito substituíram a verdadeira entrega.

A conclusão é que sempre nos identificamos com o vencedor, e temos um terrível medo de a cada dia estarmos mais distantes desse ideal internalizado. Nossa compaixão não é tanto pelo fracassado, mas principalmente uma autopiedade por toda a nossa insegurança. Enfim, a religião é uma tentativa de se criar uma mentira sobre a verdadeira natureza humana , pois a evolução e melhora das relações pessoais e sociais passam necessariamente pela diminuição do poder e controle entre as pessoas, mas infelizmente só temos assistido a mecanismos que impedem o prazer e desenvolvimento natural dos seres humanos. Não ser nocivo implica necessariamente não passar as piores coisas para alguém, coisa rara em nosso cotidiano. Como a cada dia que se passa nosso sofrimento pessoal tem se intensificado, desaprendemos ou não mais desejamos passar nosso melhor pedaço da alma humana.

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