
Sobre o tipo autopunitivo todos reconhecem bem suas características: sofrimento pleno no transcorrer das diversas passagens de sua vida, ultra solidariedade com os mais desafortunados, não permitindo que seja merecedor de qualquer desenvolvimento ou prazer, deve seguir a horda dos despossuídos de autoestima, teme totalmente despertar a inveja perante sua pessoa, se esconde completamente de qualquer posição de poder ou destaque, ritualismo, normas e obsessividade são seus padrões corriqueiros de comportamento. Na verdade o maior pavor deste tipo é similar ao da timidez, medo da crítica, a diferença é que o tímido possui melhor mecanismo de defesa, tipo o bunker econômico que construiu. No autopunitivo a carga é direta, sem nenhum escudo. Podem ter ocorrido traumas de infância, ou pouco reforço na sua imagem de ego, mas independente de tais fatores seu olho clínico sempre foi o de compartilhar a miserabilidade psíquica alheia. Notem que tal caráter vai completamente à contra mão de nossa estrutura social de egoísmo e insensibilidade. O importante é cumprir todas as normas para evitar o terror de ser notado. A psicanálise explica tal caráter como à angústia da castração, se sentir subtraído de um atributo ou poder maior. O famoso psicólogo francês JAQUES LACAN, introduziu neste aspecto, o conceito da fase do espelho, onde a criança em determinada fase de seu desenvolvimento se reconheceria como objeto único, separada de qualquer complemento materno, não se veria mais em partes. Pois é justamente nessa fase que solidificamos uma crença sobre nosso potencial. Embora não seja seguidor de tais conceitos, notei que muitos relatos de pacientes acerca de quando se deu sua percepção que era único neste mundo, vinham acompanhados de dois sentimentos incrivelmente opostos; ou se achava hiper valorizada, com intensos sentimentos de grandeza e poder do que poderá ocorrer em seu futuro, ou uma angústia e decepção paralisantes, sentidas por uma frustração perante sua imagem.Tais episódios nada mais são do que a origem genética do conceito de ALFRED ADLER sobre complexo de superioridade e inferioridade, assim sendo, o tipo descrito navega quase sempre no segundo, negando por completo o primeiro. Mas porque seu não merecimento ao desejo de superioridade? Além de problemas descritos com auto imagem, é um repúdio contra as responsabilidades que uma posição superior desencadearia. O autopunitivo esgotou toda a sua energia no privado, doméstico, não sobrando nada para sua vaidade social positiva. É como se tivesse feito uma maratona pela manhã e a tarde não tem mais empenho para nada. Já cumpriu suas tarefas, então deseja descansar ou se retirar, pois do contrário deverá lidar com a vergonha, outro terror para o mesmo. Esse último sentimento é motivado não por fatores reais, pois na maioria das vezes a pessoa sabe muito bem que têm seus encantos, o ponto básico é a necessidade do luto constante. O autopunitivo é uma espécie de carpideira a cada receio ou ameaça de liderança ou poder pessoal. Novamente na contra mão do que vemos regularmente. Mas então concluímos que todos devem almejar ao poder? Não necessariamente, a questão é a economia de sentidos e prazer, resistir em ser ou trocar a fundo seu real valor, pois incrivelmente o medíocre não tem vergonha de nada, se expõe ao ridículo apenas para angariar a atenção, ao contrário do autopunitivo, que retém sua energia, se transformando num avarento psíquico contra si próprio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário