Que cada um de nós se torne responsável por seu próprio descontentamento. . .
Não existe o mal em si.
O mal é uma ideia, isto é, um ser que só existe nas nossas cabeças, ou melhor, ENTRE as nossas cabeças.
Entre as nossas orelhas...
Forjamos a ideia de mal a partir da nossa experiência cotidiana com aquilo que julgamos como mau (com 'u').
Portanto, é absurda qualquer teoria que afirme que há no homem uma tendência inerente ao mal, afinal como poderia haver na natureza uma inclinação para algo abstrato que não possui correspondência direta com nenhuma experiência específica e que só existe a partir da comunicação humana?
Não obstante, vemos comportamentos que designamos como maus o tempo todo, o que nos leva a pensar na impossibilidade de uma sociedade em que não houvesse nenhum tipo de ação má.
Paradoxo. Se não há uma disposição natural ao mal, por que, então, não conseguimos deixar de nos comportar de modo mau?
A meu ver, a resposta se encontra no mito fundador da nossa civilização ocidental, a saber: o mito de Adão e Eva no Éden.
A fábula bíblica, que vejo como uma alegoria da condição existencial humana, mostra que por mais harmônica e suficientemente boa que seja a relação entre o ser humano e seu ambiente, sempre haverá espaço para o descontentamento.
Afinal, ao primeiro casal humano não faltava absolutamente nada.
Gozavam do amor de Deus e de todos os frutos da terra. Por que diabos Adão e Eva foram se interessar logo pelo único fruto que não podiam comer?
Por que não se contentaram com todo o resto? Por que quiseram ser mais do que já eram?
Não creio que foi porque Javé proibiu. Não concordo com a tese de que tudo o que é proibido é desejável.
Não é, por exemplo, a proibição de matar que leva alguém a matar. A meu ver, o fato de Adão e Eva terem QUERIDO o que não PRECISAVAM nos faz ver que há em todos nós não uma tendência a fazer bobagem, mas um furo, uma tortuosidade, um descontentamento (que os judeus chamaram de 'pecado') que nos faz querer sempre mais, por mais satisfeitos que estejamos.
A meu ver, é esse furo e as consequências existenciais dele que nos levam à prática de atos que julgamos serem maus.
Logo, não podemos cair na ilusão de que se mudarmos o modo como vivemos em sociedade, poderemos experimentar uma vida sem comportamentos maus.
Que cada um se torne responsável por seu próprio descontentamento - é o máximo a que podemos chegar.
Lucas Napoli psicanalista , professor de psicanálise, e escritor.

