
A RAIZ DA DIFICULDADE EM FAZER ESCOLHAS. . .
Tente se lembrar da última vez em que teve que tomar uma grande decisão em que estavam presentes diversas possibilidades de escolha.
Provavelmente, antes de decidir-se por uma das alternativas, você experimentou uma sensação bastante incômoda chamada ANGÚSTIA.
A imensa maioria das pessoas tem dificuldade em fazer escolhas justamente por causa desse sentimento tão desagradável.
A fim de evitá-lo, adiam, enrolam e postergam indefinidamente suas tomadas de decisão.
Você consegue discernir de onde vem a experiência da angústia, isto é, por que o ato de escolher não é acompanha de tranquilidade e serenidade, mas dessa sensação desprazerosa que combina ansiedade e aflição?
Muitas pessoas responderiam a essa pergunta argumentando que a angústia vem do fato de que ao nos decidirmos por uma determinada opção, abrimos mão de todas as outras. Nesse sentido, teríamos dificuldade em tomar decisões por que não suportaríamos abandonar as demais possibilidades que a vida nos oferece.
Seríamos todos avarentos em relação às nossas alternativas existenciais.
Outra hipótese sustentada por muita gente é a de que a raiz da angústia da escolha seria o nosso medo de assumir responsabilidades.
Toda escolha implica na admissão por parte daquele que escolhe de sua condição de SUJEITO e não de objeto perante a vida, ou seja, de sua responsabilidade diante do destino que sua existência tomará.
De fato, a maioria de nós teme demasiadamente essas consequências do ato de escolher, preferindo que outros tomem decisões em nosso lugar.
A explicação é óbvia: caso as decorrências da escolha sejam ruins, prejudiciais, destrutivas, a responsabilidade será do outro e não nossa.
Conquanto eu admita que ambas as hipóteses fazem sentido e são, de fato, válidas parcialmente para a explicação da gênese da angústia da escolha, tendo a considerar que a verdadeira raiz de nossa dificuldade em decidir situa-se no significado que qualquer escolha tem para a nossa relação com o mundo.
Explico: a experiência psicanalítica nos mostra que uma das questões-chave que habitam o cerne do ser de cada pessoa é a seguinte: -
"O que o mundo quer de mim?".
Essa é a questão que desde bebezinhos nos fazemos, desde o momento em que, de repente, a mamãe passou a nos deixar um pouco de lado e voltar a ter olhos para o papai, para o emprego, para o telefone que toca...
Desde aquele momento, em que a mãe é todo o nosso mundo, nos perguntamos: "Afinal de contas, o que eu preciso ser ou fazer para que esse 'mundo' volte a olhar para mim como antes, me amar incondicionalmente como antes e a me dar toda aquela atenção como antes?".
Isso significa que cada uma de nossas escolhas está de alguma forma enquadrada e referenciada por essa pergunta.
Nesse sentido, antes de tomarmos qualquer decisão, antes de nos perguntarmos: "Escolho x ou y?", nos fazemos outra indagação ainda mais fundamental: "Como serei amado pelo mundo? Escolhendo x ou escolhendo y?".
É óbvio que não estou dizendo que nós façamos esse questionamento conscientemente.
É claro que não.
Trata-se de uma pergunta inconsciente e à qual nós respondemos com soluções também inconscientes (que a psicanálise chama de fantasias).
Minha hipótese, portanto, é de que nossa dificuldade em fazer escolhas decorre do fato de que tememos que nossas decisões estejam "erradas" do ponto de vista do que o "mundo" (o Outro) vai pensar de nós.
A angústia vem justamente daí, como efeito do nosso desconhecimento em relação ao desejo do mundo.
Dito de outro modo, estamos permanentemente às voltas com a pergunta: -
"Quais escolhas certas devo fazer para ser amado, para que eu esteja de acordo com o que o mundo deseja que eu seja?"
.Lucas Napoli psicanalista.