domingo, 16 de dezembro de 2012

O desejo é a expressão dessa falta de satisfação absoluta.











As nuances do amor.

A psicanálise é um discurso sobre o amor. 


Para Lacan, no princípio era o amor. 


Com essa frase Lacan inicia o Seminário VIII, sobre a transferência, onde fala do Evangelho de São João, cuja primeira frase diz que no início era o verbo. 

O verbo é essencialmente amor e daí a idéia de que todo discurso é um discurso amoroso. Mas o discurso amoroso é também um discurso odioso, a cobrir gestos odiosos e palavras estúpidas.

Lacan descreve três momentos sobre o amor.


 O amor como paixão do ser, o amor em sua vertente de engano e o amor como significaçào vazia.

 A falta, o encontro e a suplencia.

Para Freud, a psicanálise é um tratamento pela via do amor, é a base de todo laço humano e um dos fundamentos da cultura.

 
Na experiência analítica, o amor tem o nome de transferência e é um conceito fundamental da psicanálise.
Por isso falar do amor em psicanálise é falar da sexualidade, do desejo e da pulsão. “Eu te amo e porque amo algo em ti mais do que tu, eu te mutilo”. 


Em psicanálise só se fala de amores: amor ao pai, amor filial, amor cortês, amor a Deus, amor eterno e, fundamentalmente, amor de transferência. 


A transferência é a entrada na verdade do amor.

O amor, tal como o conhecemos hoje, é resultado de transformações singulares e contingentes que ocorreram ao longo dos séculos no ocidente. 
O desejo como desejo do Outro e o amor como demanda, se referem ao Outro, presente ou ausente, e têm o objeto a em posição de causa. 
A estratégia de Lacan é “Servir ao amor para se servir dele”. 
O amor faz todo o possível para ocultar a sua falha de origem, o desconhecimento fundamental que promove a respeito de sua própria incompletude.
O amor opera seus milagres e estabelece limites. É próprio do amor impedir que se veja certas coisas, certos defeitos da pessoa amada, mantendo determinado saber bem longe da consciência.
Quanto maior o amor, maior o recalcamento. Há uma relação muito próxima entre o amor, o recalcamento e a formação de sintomas. Lacan diz que o amor, como paixão do eu, visa a ignorância e o desconhecimento. Também se ama para não saber, para ser objeto de privação, para sofrer, para fazer sofrer. 



1. O amor na antiguidade.



Aristófanes, descrito no Banquete de Platão, narra um mito que tem como ideal a fusão fazer de dois, Um. Em seu mito, descreve que no início havia três gêneros, tinham forma redonda, quarto braços e quarto pernas, dois rostos e dois sexos, sendo um com dois sexos masculinos, outro com dois sexos feminino e um andrógeno, com um sexo masculine e outro feminino. Por serem arrogantes, foram punidos, partidos ao meio e condenados a viver a procura da parte perdida para voltar a viver o amor da completude. Como não ver nesse mito as três possibilidades de atrações sexuais?
Outro mito, narrado por Platão no Banquete é o de Eros, o amor, filho de Póros, o ingênuo e rico, o que tem algo, o amado, e Penia, a esperta e pobre, a que falta algo, a amante. Esses dois mitos estão no fundamento do amor ao modo que o concebemos no ocidente.
Lacan, no Seminário VIII, trabalha o Banquete de Platão e fala do amor e o articula sob as coordenadas do ter ou não ter. Érastès, o amante, é marcado pela falta que desconhece. Érôménos, o amado, desconhece o que tem e que causa o desejo do amante. 
Lacan quando fala de amor fala do amor entre um homem e uma mulher. É filosófico o amor que se refugia contra a experiência sexual de encontro com a alteridade, o feminino.
Freud fala do amor o faz a partir do conceito de narcisimo, inspirado no mito de Narciso. Narrado por Ovídio, conta de um jovem extremamente belo e formoso que desprezava o amor. Tirésia, o sábio, profetizou que ele viveria uma longa vida desde que jamais contemplasse a sua própria imagem. Por recusar o amor da ninfa Eco que, desiludida deixou-se morrer de inanição. , Narciso é punido pela deusa Nêmesis, deusa da vingança, o considerou responsável pela morte de Eco, e o puniu vingou-se fazendo-o contemplar a própria imagem no lago, onde foi saciar sua sede repentina. Ao ver sua imagem refletida nas águas, Narciso se enamorou da própria beleza e também se deixou morrer de inanição.

2. Amor Cortês e seus Ideais no Renascimento.



Denis Rougemont, no livro O amor e o Ocidente, demonstra que o amor, tal qual o conhecemos, é resultado de um processo corajoso ao longo da história. Certamente que existia relacionamentos entre homens e mulheres baseados no amor e na atração física, não era normal, quase sempre muito perigoso. Amar era sinônimo de arriscar-se. Influenciado pelo cristianismo, o amor antigo deu origem a outras versões do amor dentre elas o amor cortês. O amor cortês é uma modalidade de amor que se apóia na renúncia ao objeto.
Lacan ressalta a importância do cristianismo no surgimento do amor cortês. É do amor cortês que resulta o amor romântico, passando, antes, pelo amor galante do século XVIII, considerado o século das perversões e libertinagens, onde a exaltação dos sentidos, a volúpia, as relações sexuais pre-matrimoniais precoces, o culto às tecnicas do amor e o gozo amoroso como fim em si mesmo geraram a libertinagem que se converteu em moda, uma espécie de versão antiga do que ocorre na atualidade e que Zygmunt Bauman denomina de amor líquido.
O amor cristão, ao apresentar o mandamento do amor universal, de amar o próximo, produziu algo novo, um movimento entre os três registros, deslocando o amor narcísico do imaginário ao simbólico com efeito na subjetividade e no corpo.
Na idade media o casamento era fundado na caritas (estima, agrado) e o amor desejante era considerado obsceno. No século VI aparece a mulher em primeiro plano, a figura da virgem Maria.
Na esteira do culto à mãe de jesus, o amor cortês surge como o culto à mulher, na música, na poesia e na literatura. As histórias romannescas de Tristão e Isolda, Abelardo e Eloísa, Lancelot e Ginevra, Romeu e Julieta, fundaram um imaginário onde o amor aparece como falta, proibido ou impossível, a ser falado, narrado, cantado, mas não realizado. Surge nas cortes as poesias trovadorescas, o amor cortês, que aos poucos vai contagiando os pobres. Mas até o final do século XVIII, os filhos não se casam, eram casados pelos pais que, seguindo a tradição, arrajavam os casamentos baseados em princípios econômicos de conveniência.



3. O amor romântico.



Herdeiro do amor cortês, o amor romântico fundou o matrimônio romântico, monogâmico e monoteísta e transferiu amor para os filhos. Os ideais do amor romântico foram sendo difundidos na sociedade e assistimos ao declínio dos casamentos por interesse. 


O amor romântico é um tipo de amor que tende à unidade e à completude, criando um sentimento de plenitude e de complementariedade com outra pessoa com a qual se está identificado como ideal de eu. 


Para Freud, o amor dos pais pelo filho é o narcisismo dos pais renascido e transformado em amor objetal. No texto, “O Mal estar na Civilização”(1930), acrescenta: “Uma pequena minoria de pessoas acha-se capacitada, por sua constituição, a encontrar felicidade no caminho do amor. Fazem-se necessárias, porém, alterações psíquicas de grande alcance na função do amor antes que isso possa acontecer.” 


A psicanálise propõe como a primeira forma de amor, a primeira experiência vivida, o amor a si mesmo, chamado por Freud de amor narcísico; e a segunda, o amor anaclítico, o amor ao Outro, representado pela mãe, aquele que nos deseja, que nos satisfaz em nossas necessidades e nos protege. O primeira relação de amor é nacísica.


 Ama-se para ser amado.

Lacan chamou de paixões do ser, o amor, o ódio e a ignorância; e de paixões da alma, a tristeza e a mania.


 A ignorância como paixão é um dos elementos que constituem o amor de transferência. A paixão visa o outro como objeto, o amor visa o outro como ser.

O amor só pode ser concebido numa relação simbólica, mediada pela palavra. O milagre do amor, diz Lacan, é quando o érôménos (o amado) vem no lugar do érastès (o amante) e se torna o sujeito da falta, aquele que deseja.
Amar é próprio da condição humana.


 Experimentamos o amor na medida em que nos deparamos com nossa a falta a ser. 

O amor opera seus milagres mas também estabelece seus limites, e um deles é impedir que vejamos certas coisas, mantendo um certo saber bem longe da consciência, bem recalcado. 

O amor é o caminho de volta ao narcisismo, de modo que amar é por o eu ideal no outro e ama-lo por isso.

A nossa condição estrutural nos impulsiona a buscar num outro aquilo que nos falta, pensando que irá nos completar. Essa é a concepção neurótica do amor de casal, do amor como complemento do ser. 


Temos aqui o par amante e amado.

 Aquele que é carente, faltante, e aquele a quem supõe-se que tem em si o que falta ao outro.

O amante busca no amado algo que lhe falta e que supõe que ele tem mas não encontra.


 O amado não sabe pelo que é amado e não tem o que o amante supõe.

 O que o amado pode fazer é devolver amor, passando do lugar de amado ao lugar de amante e respondendo ao eu te amo, dizendo: eu também te amo.

 O encontro amoroso causa, ao mesmo tempo, a ilusão de completude e a certeza da falta: o outro é a minha falta e dou a minha falta ao outro. 

O fracasso da relação amorosa aparece quando o homem adota uma posição passivo-masoquista, obrigando a mulher a adotar uma posição fálico-ativa. A mulher quer ter e o homem não quer dar porque teme perder. Por essa via encontram-se os fracassos do amor.


O amor se baseia na ilusão de que o encontro de duas faltas pode ter êxito e gerar, causar nova harmonia.


 O nascimento de um filho obriga a reconhecer e aceitar a falta e identifiar-se mutuamente com a falta do Outro.

Amar é dar o que não se tem a alguém quem não o é, disse Lacan. Dar o que não se tem é dar a falta constitutiva. O amor como dom ativo está para além da facinação imaginária e narcísica. Por ser amor à diferença, dirige-se ao ser do outro. 


É quando amamos o outro mais que a nós mesmos. Por isso dizemos que o enamoramento é um estado de loucura transitória. Cada vez que nos enamoramos podemos perceber que dois fenômenos se repetem: a supervalorização do outro enquanto objeto amoroso, sexual e o empobrecimento do nosso próprio eu.


 O estado apaixonado mostra o domínio do objeto da libido em detrimento da libido do eu.

O abandono dói. 



Perder o objeto amado é perder uma parte de si mesmo, uma vez que toda a libido investida no objeto amado, diante da perda fica livre e gera dor, solidão e angústia, até que se faça o luto e a libido retorne ao eu para que possa investi-la novamente e volte a amar. 

Freud, Pulsões e seus destinos (1915), diz que se uma relação com um dado objeto for rompida, freqüentemente o ódio surgirá em seu lugar, de modo que temos a impressão de uma transformação do amor em ódio.


Em Sobre o narcisimo: uma introdução (1914), acrescenta: “Um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer, mas, num último recurso, devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em conseqüência da frustração, formos incapazes de amar.”


O amor situa-se entre a repetição e a invenção. Para Freud, o amor é repetição. Amar é repetir, reencontrar o objeto substitutivo do objeto interditado.

Para Lacan Amar é inventar, elaborar o saber.


 O amor é um modo de dirigir-se ao objeto a, através das palavras de amor, das cartas de amor. 

Amar é nomear o objeto a e poder reencontrá-lo.

Lacan, Seminário I vai dizer que o amor como paixão imaginária é um amor que deseja ser amado, e que só o amor permite ao gozo condescender ao desejo, isto é, ser favorável ao desejo, gozar da renúncia e da falta. 


Suplementar a falta, preenche-la! 

Quem ama goza de desejo.

A psicanálise é uma cura pelo amor, baseada na premissa de que o desejo de saber é do amor desejante e o desejo de não saber é da paixão da ignorância. 


Curar-se do destino é uma condição necessária para que o sujeito possa inventar um novo laço amoroso.


 A cura pelo amor ocorre quando se passa a amar em conformidade com o tipo narcísico.

 A cura pelo amor põe à disposição do sujeito sua capacidade de amar e trabalhar.

O desejo é a expressão dessa falta de satisfação absoluta. 


O amor dá sentido àquilo que, no campo do sentido, não tem nenhum sentido.


Jorge Sesarino - VII Jornada de Saúde Mental e Psicaná'líse da PUCPR. Outubro de 2012.