Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento
que a mereça.
Eugénio de Andrade
Nomear é um jeito do outro reconhecer o que é.....
Em todo casal, o mais íntimo do vínculo é o que fornece energia para a "ilusão fundante".
O encontro com o outro desperta em cada um dos membros do casal o mais primitivo e o mais elaborado.
De um ao outro, o narcisismo de cada um passa por um processo de reviramento.
Do outro sonhado ao outro real, entra em jogo a possibilidade de olhar para si próprio.
EVelin Pestana psicanalista
O recalcado é sempre um penetra indesejável.
Enquanto a histérica logo o expulsa, o obsessivo recebe-o bem, mas
finge que não o conhece.
O ser humano não moveria um único dedo se não fosse por algum desejo interno.

A chamada "pulsão escópica", a energia que brota dos orifícios
oculares, a que é responsável pelo olhar (não é o ver, enxergar, é o olhar...) é uma das mais primitivas e mais importantes do humano. É também através dela (juntamente com o escutar) que Freud elaborou a fonte das nossas fantasias primordiais: elas são feitas a partir de "fragmentos de coisas vistas e ouvidas", com elas compomos a memória inconsciente que nos fornece uma grade de leitura para o mundo. Junto com o escutar, o olhar é nossa primeira forma de contato com o outro, com o mundo. O valor da pulsão escópica também está na fonte do "desejo de saber, de aprender". Daí nossa alta sensibilidade à perda desses sentidos: são veículos de libido, atuam na imagem que fazemos de nós e do outro, respondem pelo sentimento de "estarmos vivos"; não importa o valor dado às fantasias inconscientes vindas dessas pulsões, elas respondem por nossa existência de forma significativa.
A infância é o tempo em que imaginamos o puro prazer - "o mundo, o outro existem como continuidade de mim, estão aí pra realizar meus desejos."
É o tempo da necessária onipotência criativa da criança (Winnicott), cujo manejo tanto põe a trabalhar os adultos, no sentido de colocar limites aos desejos ilimitados da criança.
A maior dificuldade dos adultos reside na identificação, para com a criança, a esse tempo de "puro prazer": a criança se torna depositária das fantasias de desejo dos adultos, já frustrados em boa parte delas.
Para as crianças, os pais criam um mundo onde não podem existir frustrações. Desconhecem o fato de que ao agirem assim, estão transformando potência criativa em potência destruidora de si mesmos e da própria condição infantil da criança.
Desconhecem o fato de que a potência criativa da infância já é fruto de algum, necessário, reconhecimento da realidade.
Não fossem alguns limites já estabelecidos, não haveria, nem mesmo para a criança, a necessidade de criar.
O tempo do "puro prazer" só existe na fantasia: tanto na das crianças, quanto na dos adultos.
O fundamental, a raiz da saúde, está no fazer pontes entre o inconsciente/infantil e a vida, seja ela a da infância ou a da chamada vida "adulta".
U
A quebra da inocência, do poder lançar um olhar amoroso sobre si e sobre o mundo se dá, de forma traumática, nas rupturas, sempre imediatistas, na tentativa de eliminar um desprazer - o de termos que nos construir constantemente - que perdura enquanto perdurar a vida.
É através do conhecimento que nós libertamos dos dogmas, tabus, preconceitos,
que nos prendem nas teias da vida cotidiana..