
Se pensarmos em nossas experiências passadas descobriremos duas formas de se lidar com o acúmulo de energia afetiva: uma é o inconformismo ou sentimento de revolta perante o que não obtemos ou ainda sobre algo que perdemos; a outra é a convicção interna de que nosso potencial não foi violado, embora tenhamos passado por experiências traumatizantes; e que tal potencial continua presente para ser dividido com alguém que sentimos ser especial para nosso ser. Inteligência neste mundo é a certeza da permanência de algo a despeito de toda frustração que vivenciamos, sendo que a maturidade é a troca da ingenuidade pela certeza de que podemos recomeçar sempre, abafando nosso rancor pessoal. O que é importante descobrirmos é se as outras pessoas de nosso convívio realmente nos amam ou apenas precisam de nós, pois ao tomarmos ciência dessa verdade, estaremos nos conscientizando sobre o quanto de poder ou amor depositamos em alguém. A saudade é a prova de que o ódio ou raiva são apenas defesas circunstanciais ou passionais perante nossas infelicidades, pois a mesma acaba quase sempre se sobrepondo a todas as dores vividas. A saudade é a certeza máxima de que quase sempre não temos controle e somos literalmente tragados pelas emoções, embora não as desejemos mais. Um dos aspectos positivos desta descoberta é que não que não aceitamos a morte de nosso afeto; isto é fundamental sabermos, embora devamos escolher outra forma ou pessoa para vivenciar ditas experiências. O mais importante é a sobrevivência de algo genuíno que tentamos viver. A mágoa se desvanece quando aceitamos que determinada pessoa nos doou por algum tempo algo bom, mas não foi capaz de dar continuidade aos nossos anseios Enxergar desta forma é praticamente nossa única chance de não cairmos no cultivo ao ódio e mágoa, e também percebermos a lição de constantes perdas que a vida nos impõe.
Temos de entender por que tudo quase sempre acaba em conflito. Por exemplo, por que escolhemos as pessoas erradas? Gostamos de levar uma relação como um desafio, e a paixão ardente ou desejo sexual muitas vezes podem ser pistas ao contrário do que estamos sonhando, revelando um futuro fracasso na tentativa de conquistarmos alguém. A paixão ou desejo muitas vezes não é o caminho mais seguro para a experiência do amor; apenas podem provar a dimensão de nossa carência e o quanto necessitamos de alguém para nos distrair da dolorosa sensação de vazio interior. A dialética da paixão é sentir algo arrebatador que faz com que esqueçamos nossa miserabilidade diária; em contrapartida, o fruto da mesma também pode ser a mágoa e ódio quando descobrimos que não detemos nenhum tipo de poder sobre o sentimento do outro. Nada corrói mais nossa alma do que a não correspondência de determinado investimento emocional, assim como a facilidade do companheiro em abandonar por completo e rapidamente o relacionamento. Constantemente nos sentimos fracos e abatidos, e a realidade é que em raras ocasiões de nossas vidas encontramos uma âncora para amenizarmos a turbulência de nossa insatisfação. Quando passamos por determinada decepção amorosa começa uma verdadeira corrida contra o tempo, pois é como o soar de um alerta que nos diz que qualquer futura expectativa acabará no mesmo sofrimento outrora experimentado. Este é o começo do desenvolvimento de uma neurose ou cultivo ao medo que se nada for feito nos acompanharão pelo resto de nossas vidas. O sabor do prazer ou gozo sempre será atormentado pelo medo da repetição do flagelo pessoal.
Todos de certa forma sabem que uma determinada pessoa é incapaz de preencher as expectativas de uma outra na sua totalidade, sendo que a mágoa por esta ótica é a raiva ou acúmulo de frustração não porque a pessoa necessariamente falhou, mas, por nos sentirmos "dependentes", seja de uma pessoa ou imagem. É fundamental um tempo para que a pessoa possa trabalhar com tais lembranças dolorosas, sendo esta uma das funções primordiais da psicoterapia. "Poderia dar certo; estou com saudades; me sinto subtraído sem a sua presença por mais dolorosa que fosse". Estas são as mensagens subliminares da mágoa que constantemente vem acompanhada ou revestida de saudade. É fato que esta última, apesar de tudo, é vital para a vida de um ser humano, pois nos aponta um caminho ou determinada história de experiência gratificante. A saudade revela sua companheira, a angústia, que nada mais é do que um sentimento pleno de impotência pessoal para recomeçar algo. A angústia é exatamente o terrível choque inicial que nos diz que não temos nenhuma chance ou saída. É a experiência subjetiva que mais se aproxima da morte. A própria paranóia caminha em paralelo, pois constantemente nos guia para a sensação de catástrofe, roubando por completo nosso tempo pessoal.
Analisando com paciência os dados acima, concluiremos que de certa forma a saudade é uma rebelião contra a certeza da perda ou morte, transferindo todo seu peso para a esfera emocional. Sempre necessitaremos de uma esperança de continuidade. Sabemos que nosso tempo é curto, diferentemente de outras espécies que visam completarem uma tarefa para a perpetuação instintiva da vida. Nosso dilema é muito maior, passando pela questão crucial do que vamos realmente deixar? Há muito tempo a psicologia já deveria ter introduzido a noção de que determinado bloqueio ou trauma, nada mais é do que o medo da morte deslocado para um evento afetivo. O que caracteriza o inconsciente atual é o temor de que a entrega plena para algo ou alguém nos trará a morte com maior rapidez. O sentido da economia seja no plano material ou pessoal é a tentativa de dosar todas as experiências, com a promessa de se ganhar mais tempo. O êxtase é substituído por uma rotina neurótica, que pelo menos traz a recompensa da postergação do final. A saudade como vemos se insere neste contexto amplo, e nada mais é do que um subterfúgio para não encararmos a máxima experiência de perda. Seja pela estética, segurança econômica ou religiosidade, o ser humano nunca revelou de forma tão clara e primitiva seu terrível pavor da morte, e nossa cultura é apenas um recheio mórbido e tedioso dessa verdade. Ao invés da busca romântica do ser amado como ocorria nos tempos antigos, parece que os esforços atuais caminham no sentido de quem sobreviverá perante toda a miséria em todos os níveis.
Fala-se muito na importância do desapego para minorar o sofrimento da mente. Acontece que o mesmo advém não de uma forma excêntrica de isolamento ou meditação, mas, quando conseguimos lidar com a bagagem do sofrimento e também ajudar para que outros trilhem uma estrada com menos angústia e tormento pessoal, apesar dos constantes erros no decorrer de tal tarefa. O desapego só tem um sinônimo chamado: "divisão". A mágoa também ocorre quando não há um apontamento ou reconhecimento de um esforço consciente ou inconsciente em benefício do outro; esta é uma das melhores pistas acerca de quem realmente nutre uma afeição especial por nossa pessoa. Percebam que em nossos tempos não é difícil o teste sobre quem realmente se encontra disponível; o grande problema passa a ser a imensa carga de carência ou fantasia que depositamos na outra pessoa, cegando por completo nossa percepção. A perda da ingenuidade se dá exatamente neste ponto, quando sentimos que nossas fantasias não têm mais o poder de entorpecer nossa mente, sendo que não gostamos de tal sensação ou perda de uma ilusão. Com toda a certeza a saudade jamais terá o poder de recuperar a potência das fantasias pretéritas. Mas o leitor irá indagar como evitar todo o exposto acima, já que parece que um dos maiores vícios do ser humano é exatamente o brincar ou manipular sentimentos alheios. Parece que a única coisa que nos resta da decepção é a análise do caráter de alguém. Entretanto, gostaria de ressaltar que a energia para qualquer recomeço é oriunda do mais profundo poço de pensamentos e frustrações que herdamos dos relacionamentos. A saída é não ter medo na mais profunda acepção da palavra, acerca dos piores pensamentos ou sensações que possam invadir nossas mentes. Qualquer combate contra a depressão ou negatividade passa necessariamente pela aceitação de que ambas já fazem parte de nosso cotidiano.
Ponderar sobre se o medo é muito mais potente do que a própria vivência negativa é condição fundamental para garantirmos nossa estabilidade mental e emocional. Descobriremos em seguida, que a saudade, mágoa ou ódio se entrelaçam em vários pontos ou circunstâncias com nossos mais profundos sentimentos de insegurança. A imagem positiva ou prazerosa da saudade, muitas vezes pode ser uma alucinação ou miragem que camufla o pânico pessoal, nos desviando da tarefa sempre vital do recomeço. O próprio amor que achamos que sentimos por determinada pessoa pode esconder dito pavor do reinício ou da perda, provando que nosso sentimento é somente apego. O desafio diário é manter uma relação ao menos saudável e amigável com nossos pensamentos, o que convenhamos, cada vez está mais difícil. Quase não conseguimos mais nos conscientizar da dialética de todos os processos da existência, e a cada dia nos tornamos mais compulsivos e apegados à questão da segurança em todas as esferas. A saudade e mágoa são a mais pura prova viva de que apesar de toda racionalização ou terapia que tenhamos efetuado, o conteúdo doloroso teima em permanecer vivo e atuante em nosso ser. Insisto novamente no entrelaçamento de diferentes emoções; quando mentalmente desejamos reviver experiências gratificantes passadas, se abre o portal para as mais drásticas vivências de angústia e depressão.
A história da psicanálise de FREUD corrobora o ímpeto pela nostalgia de experiências passadas. O mesmo disse que o amor nada mais era do que a sublimação ou desvio do instinto sexual para um projeto de convivência. O ponto ausente nesta tese é que o amor não é somente o desespero para se reativar um cuidado ou atenção que obtemos no passado, mas, uma completa fuga da certeza de que a partir de determinado momento do desenvolvimento de nossa vida, talvez tenhamos de conviver mental ou fisicamente com a experiência da dor sem nenhum amparo ou proteção. A própria doença mental é uma ficção do retorno a um período de ausência de responsabilidade ou conflito, sendo o aborto de qualquer tipo de desafio. A saudade em determinada via se junta a inveja como sentimento doloroso. Isto ocorre por determinada pessoa sentir que a outra lhe roubou uma parte "preciosa" de seu íntimo; e nada é mais torturante do que o pensamento obsessivo sobre a pessoa que nos deixou ter crescido após a separação, justamente através de algo único que a deixamos levar; pois caso a mesma permanecesse fragilizada, haveria sempre a esperança do retorno. O sofrimento da saudade sempre é amplificado por se saber que a partir de determinado momento não haverá a fuga para preocupações corriqueiras, sendo que quase nenhum ser humano foi treinado para vivenciar a experiência profunda do conflito, pois todos partem para escapismos das mais variadas formas. A síntese é que o amor também possui uma via de fuga perante experiências de medo e frustração, e não devemos deixar que o mesmo cresça nesta perspectiva.
Voltando a questão da interligação das emoções, descobriremos que a saudade também traz a tona o desejo de vingança. Esta é a mais pura confissão da insatisfação e derrota pessoal, sendo uma defesa mental contra a admissão do sentimento de inferioridade. O grande problema atual dos relacionamentos, é que parece que muitas pessoas querem viver tudo quando justamente a relação já se extinguiu. O fato é que quando se descobre amar alguém após a perda, isto jamais será um sentimento genuíno, mas, a mais pura prova de apego e posse. É muito difícil o lidar com tal situação, pois a angústia resultante também está enraizada na inveja e ciúmes. Este alerta tardio corrobora a inutilidade do orgulho pessoal, sendo que resta a reflexão sobre o quanto valia a pena determinada convivência. Infelizmente como disse acima, todos têm uma tendência a se concentrar em questões menores. Até uma possível infidelidade muitas vezes é equivalente a determinados segredos do passado que não ousamos revelar, embora no final sejam de uma banalização que nos surpreende. O fundamental é se conscientizar sobre qual o sentimento que restou, positivo ou negativo, e como podemos tentar reutiliza-lo numa nova parceria. Enxergar plenamente o lado positivo da derrocada é perceber que a própria criatividade sempre emana do conflito. A saudade deveria ser então o combustível para uma nova busca como citei anteriormente. Claro é o fato de que jamais poderemos ter uma maturidade suficiente para evitar novos erros. Aguçar nossa inteligência é compreender que os medos têm se sobreposto perante qualquer tipo de emoção ou sentimento. A medicina no último século expandiu o desafio do aumento da expectativa de vida, graças aos avanços científicos da área. Do ponto de vista psicológico, qual seria a meta na atualidade? Descoberta de mais remédios contra a depressão, sofrimento ou tédio? Penso que a resposta mais segura é o investimento no auto conhecimento.
Quem a todo custo clama por ser amado corre um grande risco. A mente receptiva para os anseios de alguém, muitas vezes desenvolve uma repulsa perante a excessiva demanda ou carência do outro. Quase todos fazem uma leitura que o excesso em determinada esfera afetiva se torna uma espécie de escravidão, sendo que ninguém quer ocupar o posto de inferioridade. Infelizmente isto ocorre com freqüência, e a saída tem se tornado a insensibilidade e fuga de um aprofundamento amoroso. Este é o retrato mais atualizado dos relacionamentos. O pânico coletivo é descobrir um dia que fomos objetos do depósito das piores partes de um ser humano, que jamais desejou uma troca verdadeira. Resumindo, não haveria nenhum mal na saudade, se a mesma não se associasse às piores emoções do ser humano, como p.ex: ódio, rancor e inveja. A compreensão plena e tranqüila de que determinadas lembranças jamais se extinguirão, como se fossem instintos como a fome ou sede, certamente nos colocaria num patamar de evolução. É total utopia o controle da mente. O máximo que podemos conseguir é o esvaziamento do depósito da frustração e animosidade que carregamos diariamente. Este é um treino que pode durar uma vida. O velho ditado popular de que a cura para uma frustração amorosa é a iniciar uma nova, não deixa por um lado de ser uma bobagem, pois o risco da comparação é um golpe fulminante para qualquer recomeço. A única saída é tentar se preparar e pensar sobre a dicotomia em qualquer aspecto da existência. O tédio ou a indolência que se sente num novo relacionamento é a prova do exposto acima.
A grande contradição deste texto é que após todas estas dissertações, o leitor sentirá que suas lembranças nunca foram tão ativadas. Seja amor, apego, ciúmes, inveja ou ódio, temos de admitir que determinado conteúdo afetivo jamais se esvaece; sendo que nosso sonho é o controle ou desligamento perante algo em que não fomos prontamente atendidos. Nosso lado infantilizado da exigência da satisfação de necessidades individuais através de outra pessoa, jamais deixará de ser o espectro de nossa alma. Nosso dilema existencial passa pela tentativa do esquecimento de frustrações, que nada mais são do que o ódio internalizado por sentirmos que não podemos ocupar um lugar de poder no universo alheio. A experiência do abandono sempre será uma das maiores torturas psicológicas que determinado ser humano tenta não vivenciar, sendo que a saudade é o mecanismo de defesa automático para compensar tal drama.
Bibliografia:
ADLER, ALFRED. O caráter neurótico. MADRID: Editora PAIDÓS, 1932.














